segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O que é meu


Posso sentir cada gota de água quente confortar meu corpo. Cada uma... Escorrendo pelo meu pescoço, desviando provocativamente dos meus seios para, após percorrer minha cintura, aliviar-me obscenamente o ventre sedento e esse barulho do chuveiro agora me soa como o som do metrô correndo, fugindo... Eterno, Exato.

Levianamente, cada gota que me lava se faz lágrima: derramada, doída desesperada. Mas é doce, não salgada, é de gosto conhecido de dor assanhada, safada, repetida. Eu me sinto muito bem e por isso sei que isso de ciúme é como que uma rosa passando pelo corpo nu e ansioso, porém é o espinho que tira o sangue rubro, ávido, amargurado. E é só isso que permanece: a dor. Dor não. É raiva mesmo, e das mais mesquinhas e das menos hipócritas.

Afinal, todo mundo tem essa mania insuportavelmente ignorante de dizer que ninguém é de ninguém, que não há como possuir outra pessoa. Pois como isso? Se não há desejo mais intrínseco ao ser humano do que essa necessidade de se sentir do outro, e no final das contas ninguém deixa de usar pronome possessivo em relação ao outro. Essa mania desassossegada de querer pertencer, de estar junto a alguém, isso não passa até você se sentir possuída por alguém e por possuir em troca.

Eu é que não vou me juntar a esse coro mal cantado, mal medido, mal sonhado dos pseudo-moralistas. Eu me sei muito bem e é por isso que quando uso pronome possessivo é porque possuo, é porque sei bem o que é meu e nem essa água quente que escorre por mim agora pode me limpar disso, nem esse vapor pode esconder meus desejos mais sujos, egoístas, obsessivos.

Eu que nunca me assumi pela metade, tenho agora que ficar ouvindo que tudo não passa de um rótulo e que isso de ter o outro é doença. Mas no final é o que todo mundo quer e precisa: se sentir dentro do outro, ser parte dele, saber que são um. Possuir o outro é ser do outro. Cuidar do que é seu, não é essa a expressão? As pessoas não vão respeitar o que é seu se nem você o trata como seu. E mesmo assim, nem sempre você está livre dessa gente cretina, baixa, diminuta.

Quase me esqueço que isso que sinto me acalentar o desespero de te perder não é seu corpo, mas sim a água quente do chuveiro que me lembra seu amor. Quente, confortante, descomedido. É como que algodão em mim, em minha pele, me desvendando enquanto grito porque tentam te tirar de mim. Descobri recentemente que as pessoas são capazes de muita baixeza só porque são incapazes entender algo chamado respeito. É esse tipo de gente que sai por aí pregando justamente que ninguém possui ninguém. É esse tipo de pessoa que vai passar por você sorrindo enquanto, sem ao menos te conhecer de fato, vai pisar em tudo que você está construindo. E elas vão fazer isso sem pensar duas vezes, porque essas pessoas não pertencem a ninguém, a lugar nenhum. Não têm nada nem ninguém.

Desligo o chuveiro, seu abraço me impede de cair, de falhar, de fraquejar mais. Mas quando eu vencer, eu renascerei porque possuirei você.

Nenhum comentário:

Postar um comentário